Revista Brasileira de Docência, Ensino e Pesquisa em Enfermagem, Vol. 1, No 1 (2009)

PROFESSOR - PROFISSIONAL DA APRENDIZAGEM

Pedro Demo

Resumo


A imagem docente no Brasil está marcada pelo “ensino”: professor é profissional do ensino, usando como “tecnologia” básica a “aula”. Procuro neste texto desconstruir esta idéia, que considero equivocada e mesmo fraudulenta. A atividade escolar continua dividida, em geral de modo estanque, entre ensinar e aprender: ensinar cabe ao professor, aprender cabe ao aluno. Como, porém, o desempenho escolar não tem melhorado na última década (pelo menos desde 1995, quando começou o atual formato avaliativo do Saeb) (Demo, 2004), esta divisão parece esvair-se, restando dela apenas no professor uma autoridade exaurida de ensinar e no aluno uma presença falida de aprender. Não se retira daí a conclusão de que a escola perdeu o sentido, por mais que seu papel esteja sendo abalado pelas “novas alfabetizações” (Coiro et alii, 2008) ou por iniciativas incessantes de aprendizagem informal (Funk, 2009. Latterell, 2006). A escola continuará importante como expressão concentrada de aprendizagem formal, ainda que não mais reinando sozinha nesta paisagem. O professor também se sente desafiado, em especial porque sua aula é cada vez mais vista como recurso antiquado: aprendeu mal assistindo a aulas quando fez curso superior e mantém este tipo de aprendizagem equivocada na escola.

Todavia, não está propriamente abalado o papel do professor, mesmo levando-se em conta a baixíssima aprendizagem escolar. De um lado, as teorias de aprendizagem não se cansam em apontar o professor como referência crucial da aprendizagem do aluno, bastando lembrar a proposta de Vygotsky da “zona de desenvolvimento proximal” (aquilo que o aluno poderia fazer com apoio docente, para além do que já faz sozinho) (Mason/Rennie, 2008) e amplamente aproveitada nos jogos eletrônicos (Gee, 2007). De outro, tornando-se aprendizagem permanente referência marcante do novo século, em particular por conta da intensividade do conhecimento na vida e na economia (Duderstadt, 2003), o professor reaparece como protagonista fundamental. Seu papel, todavia, muda radicalmente, passando de transmissor de conteúdos e centro da escola para “coach” socrático, a serviço da aprendizagem do aluno.

Neste texto tento reconstruir o perfil do professor na direção da aprendizagem, não do ensino, tendo como objetivo maior valorizar este profissional estratégico dos novos tempos. Ainda não lhe demos devida atenção. Embora também mereça críticas, precisa principalmente de oportunidade (Demo, 2007).


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