Revista Brasileira de Docência, Ensino e Pesquisa em Educação Física, Vol. 2, No 1 (2010)

EDUCAÇÃO FÍSICA: DISCIPLINA DISPENSÁVEL VERSUS DISCIPLINA IMPRESCINDÍVEL COMO ULTRAPASSAR A SITUAÇÃO PARADOXAL QUE CARACTERIZA A EDUCAÇÃO FÍSICA?

Francisco Carreiro da Costa

Resumo


A Educação Física vive presentemente uma situação paradoxal. Por um lado, a Educação Física é, em muitos países e regiões do mundo, uma disciplina política, social e culturalmente marginal (Pühse & Gerber, 2005), como resultado de uma visão sócio-cultural que atribui à Educação Física um papel secundário no processo educativo na Escola. Por outro lado, a Educação Física é considerada, não só uma disciplina fundamental relativamente à promoção de um estilo de vida activo e saudável (Haywood, 1991; Wallhead & Buckworth, 2004), mas também um instrumento indispensável para concretizar com sucesso uma política de saúde pública (Sallis & MacKenzi, 1991; Trost, 2006). Estudos realizados nos Estados Unidos da América (NASPE & AHF, 2006; Pratt et al., 1999), em Inglaterra (Hardman & Marshall, 2000) e na Austrália (Brown et al. 1999) indicam que a Educação está em declínio em muitas escolas. O tempo programa atribuído à Educação Física ou é insuficiente ou foi reduzido com o objectivo de atribuir mais tempo a outras áreas de aprendizagem supostamente consideradas essenciais ou más importantes para a formação dos alunos, atendendo aos desafios que têm que enfrentar num mundo em mudança acelerada. Na verdade, persiste no seio de muitas comunidades educativas e na sociedade a reivindicação de mais tempo para a matemática, a língua materna e a informática (Sibley & Etnier, 2003). Trata-se de uma visão inadequada do processo de desenvolvimento e formação dos alunos, partilhada por muitos políticos, directores de escolas, professores e pais, assente na ideia de que proporcionar mais tempo a uma determinada área de aprendizagem resultará de imediato em mais sucesso escolar. Semelhante perspectiva originou a defesa de uma política de gestão educativa dirigida para o aumento do tempo no horário escolar de disciplinas que segundo alguns deverão constituir o currículo fundamental, retirando tempo às que consideram periféricas e não vocacionais como são os casos da Educação Física, Música e Artes. Paradoxalmente a situação ocorre quando um número crescente de investigadores tem demonstrado que a prática estruturada da actividade física na Escola exerce una influência positiva na atenção, aprendizagem, comportamento, e no sucesso escolar dos alunos (Dollman et al., 2006; Sallis et al., 1999; Shephard, 1997; Wilkuns et al. (2003). Pressionados pela necessidade de melhorar a posição das suas escolas nos rankings, muitos gestores procuraram melhorar as estatísticas sobre os níveis de rendimento dos alunos reduzindo o tempo das disciplinas que não contam para as estatísticas. Esta situação encontrou suporte nos resultados dos estudos processo-produto realizados na década de setenta e oitenta que revelaram a associação positiva entre o tempo de instrução e o sucesso dos alunos (Denham & Lieberman, 1980; Dreeben & Barr 1988; Wang 1998) e no movimento social de “regresso às origens” (‘back-to-basics’) que reclama para as escolas a adopção dos métodos de ensino tradicionais orientados principalmente para a preparação dos alunos para os exames.

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